Circunscrito
leito redondo, linhas sensuais
cercada de reflexos e enfeites ornamentais
com os olhos abertos e a umbigo virado pra cima
observo fixa e intrigada o teto...
"impossível" exclamo em interno silêncio
inferindo o absurdo e calculando probabilidade;
quantos foram os pares que pernoitaram nessa cama?
quantos animais permutam aqui a trama profana?
quantas vezes vem aqui a faxineira
ágil, resignada, remove pedaços de plásticos,
nossas embalagens de mundo descartável,
estica novos lençóis tingidos de branco
sem cheiro, sem cor, de toque inócuo
testemunhas do mais árido tipo amor...
quantas vadias e quantas devassas
suadas, trincadas, entorpecidas
acelerando a cento e cinqüenta cifras
por hora são e estão aquém
à'quela bela e viva expressão,
fractal, orgânica, plástica, que paira
subversiva sobre suas cabeças, enquanto
procuram câmeras atrás de espelhos
e trocam o canal em remoto controles
empastados de porra e suor; sem nunca sequer
perceber que acima mora o verdadeiro
deus voyeur, courrier d'amour,
selo estampado, lavoura de fungos, lavrado
khaki-pastel, bege, dourado
como marca-d’água no forro de gesso
de um telhado furado; pasmem:
um teto gozado
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